30 abril, 2012

Elevador, o drama.



_ Vamos ao terceiro andar, lá deve ter sala de estudo, já que as do primeiro estão todas ocupadas! Disse fulano
_ Tudo bem! Exclamou sicrano. Vamos logo, temos apenas vinte minutos para ensaiar a apresentação.
_ Vamos de elevador? Ideia do fulano
_ Não, estamos mais perto da escada. Vai ser rápido! Outro fulano
_ Beleza! Fulano um pouco desanimado.
     Correram na verdade, engoliam cada degrau, como se os deixados para trás caíssem e abrissem porta para um abismo. Movidos pelo desespero de estudar um pouco mais, procuravam uma sala vazia, naquele prédio que mais parece hospital, com seus longos corredores e paredes brancas, do que uma universidade. Culpa da Linguística, eu diria, que aterroriza qualquer iniciante.
     Chegando ao segundo andar, adivinhem, a escada estava cheia de gente, fofocando, estudando, obstando a passagem:
_ Vamos de elevador, é melhor. Vai demorar passar por esse pessoal. Disse fulano
     Assim preferiram, e entraram os quatro, com esperança de que seria rápido. Sandra, a voz do elevador, assim apelidada, anunciou que desceriam, causando murmurações.
     Entrou de sorriso esquivo, uma mulher, que por sinal subiria pro terceiro. Fecharam-se as portas. "Agora ele sobe" comentaram e riram. Mas não, ele foi pro primeiro subsolo, onde ficam os corpos das aulas de anatomia. Porta de abre, que coincidência, a mulher que esperava de fora, era amiga da estranha que acabara de entrar, a dois andares acima.
     Como o limite era de seis pessoas, e já estavam em cinco, se apertaram um pouco, para que a outra, dessa vez de sorriso aprazível, coubesse.
    Sandra, agora avisa que subiriam, brotaram sorrisos. Passa andar, outro andar. Elevador de passo lento. Chegando, e todos se preparando para descer:
_ Só falta a porta não abrir agora! Exclamou o idiota Fulano.
_ Não, você está doido? Vira essa boca para lá! Nem pense nisso! Gritaram as outras.
     Enquanto fazia o ritual de parada, algo parecia errado.
_ Gente, que estranho! Disse uma das mulheres.
     A porta não abriu, o elevador parou e não respondia. Apertar os botões nem fazia efeito, as luzes não acendiam. O visor, onde aparecem os andares, desligou. E quando ligou, apareciam apenas quatro traços, como quando dá Erro. O desesperou pairou. Via-se nos rostos, a preocupação, o medo de ficar preso. O oxigênio se esgotaria em pouco tempo... Espera, ele já estava pouco. Um deles procura alguma entrada de ar, mas não tinha nenhuma. Duas garotas, do grupo que queria apenas estudar, começam a esboçar traços de apavoramento, enquanto o único garoto dali grita:
_ Ninguém desespera, nós vamos sair daqui, ele só está demorando por estar pesado. Podem ficar calmas.
     Na verdade, nem ele sabia se era essa a causa, poderia ser qualquer outra coisa, mas precisava manter ali dentro a calmaria. Por dentro seu sangue corria mais rápido, o coração batia mais forte, e por fora gelava. Não queria demonstrar o medo, por isso ria, para descontrair.
     Repentinamente, Sandra avisa o subsolo dois, mesmo com o elevador parado. Um minuto de euforia, destruído pela ininterrupta chatice do elevador, parado. Com mais desespero, o garoto aperta o sino, avisando a falha no equipamento. Ninguém aguenta mais aquela agonia. Os semblantes demonstravam cada vez mais o anseio por liberdade.
     Acontece então, o melhor. O elevador começa a descer, mas ainda estranho, mais rápido que o comum, não parou em nenhum andar, e os olhos encheram d'água. Enfim, sairiam do sufoco, e respirariam ar fresco.
Com sinal de que pararia, Sandra novamente anuncia o subsolo 2. Parou. Expectativa. Como que já conhece sabe e se acostuma, ouviram um barulho típico de quando a porta vai abrir.
_ Nossa, vai abrir. Graças a Deus! Exclamaram.
     A porta abriu, quase que se atropelaram em busca do chão, não queriam nem pensar na possibilidade daquela porta se fechar e ficarem presos por mais tempo.
     Uma se ajoelhou, na tentativa de abraçar o chão, outros gritaram, riram... Afinal, o que mais fariam depois te tanta agonia?
     Eu, narrador, corri, como se alguém tentasse me matar, me sufocar. Passou por mim, momentos agonizantes de perda de ar, do quão sofredor seria ficar asfixiado. Parece frescura para quem está de fora daquelas portas prateadas. Só que para quem ficou preso, mesmo que por poucos minutos, surgiu a necessidade extrema por liberdade, querer que as portas se abrissem independente de tudo.
     Imagino que é assim que se sentem os pássaros, feitos para voar, cantar a beleza de tudo, visto por cima. E também é assim que me sinto em uma sociedade onde a liberdade é fajuta, onde expressar opiniões é ameaçar quem comanda, já que ninguém gosta de espíritos livres, tomados por senso crítico, que veem a verdade e não aceitam o pão e circo ainda praticado. Aquele que quer apenas ser livre, contar com políticas honestas, que procurem mudar alguma coisa, estabelecer como prioridade o povo e não o bolso. Eu sei que é clichê dizer essas coisas, já que todos dizem e nada acontece.
     Dentro daquele elevador, me senti preso não só naquela situação, mas revi que estou preso a tudo e todos, não tenho uma vida para mim. Levo uma vida preparada pelos outros, manipulada, comandada pela tecnologia, falha por sinal, que quando mais necessária, se faz de desentendida e nos deixa na mão.

27 abril, 2012

Voz em um só parágrafo.

      Linhas, verticais e horizontais. Cantos, refletores, microfone, voz. Voz preventiva, que impulsiona prevenção. Saúde da voz. Riscos chamativos, olhos atraídos, voz calma, serena e sonolenta. Sono - cansaço. Entra e sai, sai, entra. Ninguém fica. Voz-trabalho. Ar condicionado. Reflexão. Publicação. É o fim. Não, fim do começo, começo demorado. Demorou o coral, que belo cantou, maravilhosamente. Me impressionei. Agora enrolam, falando de coisas que não sei. Ainda não cheguei na época de saber. Risadas. Cadeira vazias. Mesa atrativa, flores atrativas. Tudo atrativo, menos o que deveria ser. Cadê, que eu presto atenção? Ah, mas no "coffee break", prestei atenção, como prestei - me corrigindo, não foi bem eu, foi meu "eu estômago", que tem vida própria - comi, comi que comi, até o que não queria, comi. Me enchi, não tinha comida nada antes de sair. É a vida de estudante. Nada de comer. Só xerox, recarregar carteirinha do ônibus, pagar multa de biblioteca. Mas você que está lendo, não pense que comi tudo da mesa e que não sobrou nada... Tenho mesmo essa mania. Mania feia de hipérbole, que me ajuda muito, por sinal. Quando quero algo, exagero, até conseguir/ganhar. Só que não vem ao caso. Enfim, o encerramento, meus olhos já doíam. Rolou até sobremesa, que veio de surpresa. Numa latinha de margarina, um bolo gostoso. Molhadinho, recheado de chocolate e que acaba de me dar água na boca. Delícia. Teve gente olhando, gente que nem parece ser gente. Parecem seres superiores que não usam os dedos pra comer. Ainda tenho traços aqui, traços genéticos, de meus ancestrais das cavernas, e não me importo, agradeço demais. Até que depois fizemos exercícios, pra voz, musculatura dos braços... Maz fizemos, não deixa de ser exercicío. Voltar pra casa, era o que mais queria até então, o calor estava terrível, e eu tinha um pedaço a pé pra percorrer, 48 degraus pra subir (sempre reclamando dos degraus), e a porta pra abrir. Voltar foi sim, o melhor que fizemos. Estavamos de besta, entre amigos, sorrindo e nos aproveitando enquanto há tempo. A voz então, que eu ouvia, era só do coração, pedindo socorro, fadigado e cansado. Voz que logo calou. Cheguei. Descansei. Encerrei a escrita no bloco que ganhei. Isso, ganhei lá mesmo, onde falavam de voz. Vozes que eu não entendia, só me confundiam. Terminei.

25 abril, 2012

  
 Me enganar com meus sonhos, me manter indeciso, deletar as escolhas e me fechar em meu próprio labirinto.


Meus medos ainda estão comigo, pensei que ficariam para trás com minha infância, mas não, cresceram e simplismente ficaram maiores que eu e minha tentativa de controlá-los.

24 abril, 2012

 Sorrisos, só-rrisos, sorrir, só, somente, mente, inteligente, felizmente, feliz, rindo, só-rrindo, sorte.

21 abril, 2012

Tão normal quanto o amanhecer

É tão natural escrever, deixar que a alma me guie, assim como o sol é o guia de cada manhã... Através dos meus sentimentos fixo-me ao papel e permito que as palavras fluam e se encaixem, dando sentido à minha confusão.
Gosto da simplicidade, como as idéias surgem e pedem para serem libertas. Escrever é me libertar de toda angústia e tristeza que as pessoas me presenteiam, mas também, compartilhar minha alegria, meus sorrisos. É analisar minhas mudanças, se progredi, mudei ou não de opinião, amadurei.
Uso do escrever como desabafo, o torno meu diário – o papel e o lápis nunca me deixam só, mesmo quando minto ou forjo qualquer dor.
É como observar a paisagem em uma viagem - afinal não há para onde olhar - ou a noite chegar, o brilho do universo limitado pela janela do meu quarto e pela poeira na atmosfera, o arco íris surgir. Relatar mergulhos borbulhantes na fazenda da vovó, quedas de cavalo, singelos momentos.
Sinto-me obrigado a escrever, descarregar toda carga positiva ou negativa que se agita em mim. O simples fato de grafar interpreta minha relação com as palavras, é algo que vai do real ao surreal, é transcendental, eu não as meço e elas correspondem não me medindo, temos um elo forte.
Mergulhar no mundo das palavras é fácil, apenas uma “de ponta” e já me encontro em casa. Deparo-me com as palavras e elas sabem meus segredos, nosso convívio parece ser milenar. Não preciso ser um mestre, apenas uso meu dom e espalho minhas idéias no papel. A única coisa que não consigo expressar é a dor que só pode ser interpretada pelas lágrimas que fazem do meu rosto mero escorregador.
Minha fragilidade foi de certa forma revertida ao escrever, chorando, pingando dores nos papeis que deixei marcada minha grafia. Sempre sensível, tão atingível... Cresci com os cadernos, todos escritos, rabiscados, tentando da melhor forma expor meus problemas, amarguras, pra que saíssem de minha cabeça e me deixassem em paz.
Agora creio que seja essa minha profissão, escrever. Mostrar a todos como vejo um novo dia chegando, como é pra mim um abraço fiel, a brisa fresca de uma tarde que se vai, em nuances atrás das montanhas douradas. Talvez seja esse meu futuro, escrever, sempre e nunca deixar que se acabe em mim a fonte dos vocábulos, fazendo honroso o meu dom.

Soneto à Natureza

Robustas matas selvagens, donas de peculiaridade flamejante
O brilho do orvalho na delicada folhagem. Troncos elegantes
Frechas. Vitrais. Vitamina diária da semente germinante
Perdeu-se pelos anos, o perfume natural, hoje tão distante

Estamos perdidos, em uma época covarde, apenas abate
Árvores caem a todo instante, cenários em rubro nuance
A humanidade como erva daninha tomou todo o espaço
Sugando como cipós. Narcisista e venenosa. Pungente

Do alto ao chão, funéreo instante ao qual assistimos silente
Poluídos espelhos d'água que não refletem mais o amarelo ouro
Vitalidade, que um dia se esgotará. Luta pela vida, novamente

Onde estão os típicos sons da natureza?  Reclamam por aí
Desfaleceram com os ataques, a intensa exploração, que pena
Lamento, todo o vigor da natureza, substituído por lixo.