31 julho, 2012

Acasos de um bar - 1



Chegara ao bar, uma mulher descabelada, parecia preocupada e tinha cheiro de quem ia aprontar.
_ Chá, por favor!
_ Adocicado, querida? Perguntou a garçonete, aproveitando a brincadeira.
_ Não, com três gotas de veneno. Quero estrebuchar até a morte!
_ Pena que não servimos nenhum dos dois, adoraria lhe ajudar.
_Tudo bem. Agora tire esse sorriso sarcástico da cara e me vê o mais forte que tiver aqui.
_ Vejo que a vida não te favorece em nada, já que desejas morrer.
_Pelo contrário, a vida me favoreceu em tudo, eu é que estou cansada mesmo.
_Cansada de quê? Com esses tons oscilantes de deboche e arrogância e ironia facial, deve ter uma vida perfeita!
_ Passou de garçonete para psicanalista com a prática de ouvir bêbados imundos ou já nasceu sensitiva e brinca de adivinhar a vida de cada um que atravessa aquela porta?
_ Olha, já estou a tempo suficiente aqui ouvindo problemas. Uns mais estranhos que os outros, se não for pedir mais nada, por favor, me dê licença, tenho outros “pacientes” para ouvir.
_ Espera, espera! Você agora é minha ouvinte e interpretará o que tenho a dizer, procurando uma resposta para tudo.
_ Pode até ser, mas saiba que tenho poucos minutos para te ouvir, já perdi tempo suficiente falando contigo, se o assunto for entediante, no máximo um adeus. O movimento está muito bom para eu perder mais tempo com seus problemas.
_ A pior coisa do mundo é contar problema resumido. Poupe-me disso.
_Poupe-me de bancar a babá de uma mulher de vida feita, por sinal, muito bem feita.
Minutos de silêncio.
_Tenho um emprego, melhor, sou a patroa, me casei com o homem que sempre sonhei e consegui todos os clichês que desejei, mas nunca preenchi meu vazio, nunca tive filhos, fui traída várias vezes, várias e várias vezes, nem sequer reclamei. Relevei tudo e ainda sorria quando as vadias passavam por mim. E o vazio continua. Não tenho motivos para continuar aqui, não quero e não preciso!
Ouviam-se risos, muitos risos.
_ Qual a graça? Desentendida, perguntou a mulher.
_É, pensava que tinha escutado as piores coisas possíveis, mas vem você com todo bla bla bla, reclamando de barriga cheia. De forma sutil e petulante, se aproximou da mulher e em voz baixa disse:
_ Pediu uma resposta, Não foi? Se estiver a fim de morrer, que o faça, não fique só ameaçando. Se ameaças resolvessem alguma coisa, o mundo estaria cheio de gente morta. Seja esperta. Com licença, tem mais pessoas no balcão.
Restou então, a moça sem graça e pensativa, ainda sã, porém desolada, com seu copo vazio e o olhar cheio de desvio.

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