24 julho, 2012

Memórias de férias de Inverno

Debaixo daquela gameleira havia alegria, crianças corriam e se escondiam, sobiam e desciam, balançavam em longos cipós. O movimento da cidade era, de maior parte, das crianças que ali ficavam, aproveitando a fresca sombra da esculpida árvore de raízes salientes, esconderijo de formigas lava pé. Gritos, risos, riscos, chuviscos, de tudo acontecia ali. Ideias não faltavam, inúmeras eram as cabeças para pensar, maquinar e aprontar, enfim.
Virando a esquina e subindo a rua, o lugar certo. Grama verde, grande espaço, escuro de noite e perfeito de dia. Às vezes apareciam alguns sapos por ali, baratões e gente chata, mas nada que impedisse a diversão. Correr era o foco, correr e não ser pego, ninguém gostava de contar, bom mesmo era esconder. Onde esconder? Qualquer lugar escuro se tornava uma batcaverna, fosse um banco ou o caule de uma árvore, tudo era válido, até a porta lateral da igreja.
Enquanto havia liberdade, pés sujos e chinelos como limites, preocupações eram insignificantes, cortar um dedo, ralar o joelho, perder a cabeça do dedão do pé, era tudo normal, pois a brincadeira continuava e o dia não acabava apenas era interrompido pelos banhos e refeições, que também não importavam muito. Feder e ter Fome eram simples detalhes no meio de tanta alegria.
No quintal, amoreiras, cajueiros e árvores que plantam bananeira. Mexeriqueiras, urucuzeiros e formigueiros. Na calçada, cadeiras de macarrão, rede amarrada nas árvores e na rua, vestígios de crianças, balões rebentados e asfalto molhado, bicicletas tombadas e na baixada uma garrafa cheia d’água. Silêncio. Todos escondidos, esperando um só vacilo de quem vigia a garrafa, para chutá-la e livrar todos que já tinham sido achados. Um grito, passos rodeando a casa, todos se salvando e se escondendo novamente. Era pega-pega, pique-latinha, bete e bandeirinha estourou.
 Tudo era descoberta, crianças de cidade grande não vivem o que crianças de fazenda e “corrutela” vivem, é mais pureza e simplicidade. O pão, a pamonha, o pão de queijo e a peta são diferentes, o feijão é mais cheiroso e o café mais gostoso. Meus regionalismos ficam mais aguçados e gosto disso, torno à minha origem e não me sinto abafado.
As aventuras não se limitavam à praça e as ruas dali, atravessavam cercas, caminhavam no pasto por meio dos “trieiros” deixados pelo gado e por fim mergulhavam de um pulo, nos poços gelados. Jogavam bola, jogavam água, jogavam barro, que se jogavam desesperados para pegar os chinelos levados pela correnteza.
 Logo ao lusco-fusco, chuveiros ligados, chinelas lavadas, toalhas usadas, rastros de perfumes pelas ruas que se encontravam e conversavam entre si. Passa tempo, tempo passa. Só os passos são ouvidos, alguns murmúrios e as ruas vazias ecoam para longe, para o vento levar e deixá-las apenas, sem passos e caminhadas noturnas, solitárias. Chegando em casa, o sono não entra, a porta é fechada sem que barulho seja feito. Os colchões já arrumados, as cobertas e travesseiros distribuídos, por horas, restam longos cochichos, piadas, gargalhadas e broncas.
3 da madrugada era o mínimo, até que os olhos não suportassem mais abertos, os assuntos se esgotassem e o último, ainda olhando para o teto, dormisse. O descanso era pouco, comparado a tantas outras coisas que ainda fariam. Tantos outros anos de muita diversão, de abraços de chegada e despedida, de saudades dos amigos que agora não se veem e da velha casa que será derrubada. Não se imagina quando voltarão, mas as pitangas, carambolas, tamarindos e o céu estrelado sempre os esperarão independente dos anos, pois ali estão todas as boas memórias, e em nós, a incapacidade de esquecer a grande gameleira.

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