23 agosto, 2012

Caio

     Quando criança ele sonhava em ver a neve. Todas as noites esperava que sua janela ficasse coberta por aquela maravilha branca.  Ainda não sabia que onde morava neve não caia. Mas Caio nunca deixou de esperar por uma noite gelada o suficiente para nevar.  Nos filmes ele se imaginava deitado em tapete branco e desenhando anjos, para acompanhar sua nostalgia, brilhavam os olhos. Pequenos olhos de criança inocente.
    Seu pai que chegava sempre cansado, não tinha muito tempo para brincadeiras e nunca tinha ouvido o simples desejo do filho. Naquela quarta-feira, Caio decidiu que pediria a seu pai que o mostrasse a neve. Cutucou seu pai, que assistia o jornal e pediu de forma carinhosa. Porém, ouviu de forma seca e imponente que deveria crescer e não sonhar com coisas inalcançáveis.
     Correndo para seu quarto, com as primeiras lágrimas a escorrer, olhou para a janela e desejou com toda sua força, à uma estrela cadente que acabara de cair, a realização do seu sonho. Caio era apenas uma criança, não aceitaria que seu anseio virasse frustração. Após o pedido, se deitou, não quis jantar e nem ver o pai, estava chateado.
   Durante muito tempo esperou que seu pedido fosse realizado. Já crescido e desiludido, conformou-se com sua realidade e preferiu ignorar seu maior sonho. Mas ainda sentia, no fundo, o frio de imaginação ao deitar na neve, ambição de infância que, por fim, se tornou desilusão.
     Em seu décimo quarto aniversário, ganhou de seu pai a maior representação de amor que poderia receber. Retraído, seu pai lhe abraçou bem forte e entregou um pacote embrulhado com papel azul, que de lado tinha um bilhete, onde de forma errada, estava escrito: “Pro melhor filho do mundo ti amo”. Sem pontuação, sem correção, mas com uma expressão que valia muito mais que qualquer português bem escrito.
     Abrindo o pacote, imaginava o que poderia ser. Não esperava que fosse algo próximo do pedido feito naquela quarta-feira, já esquecida. Quando viu que lá dentro, mergulhado em bolinhas de isopor, havia um globo de neve, despediu-se de toda aflição e ali, naquele simples presente, viu algo maior, algo muito puro. Mesmo não podendo levá-lo para conhecer a neve, seu pai sempre se importou com seu desejo, ainda que em segredo. E o homem reservado o presenteou com carinho. Acabava-se então, o sonho de vida de Caio, agora concentrado em seu globo de neve, que chacoalhado, branqueava a grande Nova York.

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