31 outubro, 2012

Noite Escura no Meu Quarto

Eu vi, juro que vi. A sombra de uma vassoura passando por aqui.
Mesmo que embriagado de sono, impossível me enganar.
O luar está entrando pela janela e parecendo dois faróis.
Como eu confundiria se passei o dia todo vendo Bruxa Onilda?
Parece que até ouvi uma risada bizarra... Mas claro que ouvi.
Se isso não fosse verdade eu não estaria debaixo do cobertor.
Ai, que calor! Acho que a ponta do meu dedão do pé está de fora...
Mas não arrisco conferir, acho que ouvi ela pousar por aqui.
O que é que ela quer de mim? Eu sempre fui um bom menino.
Será que ela vai me engordar para depois me comer? Espera!
Eu juro que ouvi! Ouvi pegadas! Será que ela tem verrugas?
Eu não posso dormir, tenho que aguentar firme, não posso dormir.
Mas caso ela me surpreenda, prefiro não ver os dentes, nem o nariz.
Se ela vier me pegar eu pulo da cama, corro e pego a vassoura.
Quebro aquela vassoura! Quero ver ela me levar daqui.
Ai, não aguento mais bocejar!
Estou gelando, mas não quero olhar, nem por um buraquinho sequer.
Eu juro que vi a sombra da vassoura, eu juro que senti um perfume ruim.
                                         zZz
Não acredito! Consegui pegar a vassoura, mas não me lembro como.
Muito menos como consegui me equilibrar e começar a voar.
Não interessa, por que eu sabia que ela era fraca, e que eu conseguiria.
Escapei e a pobre coitada ficou lá, sem poder voar, nem a varinha ousou usar.
                                          zZz
Nossa que calor, acabei cochilando. Parece que nem consigo respi...
Ainda debaixo da coberta?
Calma, a bruxa ainda pode estar aí, só esperando um vacilo meu.

30 outubro, 2012

Parafraseando Abate


É tão frio. E cruel. Caráter ao léu.
Labirinto e espelho. Paro, ajoelho.
Encontra o chão, aquela paixão.
Meu olhar umedecido, enxovalhado.
Foi atroz. E crua. A verdade feroz.
Suspeito, transformo-me em réu.
Contra a vida lutei. Tentei, me cansei. 

24 outubro, 2012

Pequeno Espetáculo


         São 2 da manhã e estou perdido em meu “apertamento”, bem apertado por sinal. Uma luz acesa clareia a folha onde deposito meu léxico, a televisão atua como plano de fundo, de volume baixo, para que eu não me sinta só. O vento me acompanha, numa dança fria e escura. Enquanto me arrepio com o frio das passadas e dos giros, fantasio coisas boas, divertidos momentos onde faço tudo, menos ficar fantasiando, como agora.
         A madrugada é um ensaio melancólico de uma peça que dura indeterminado tempo, os cartazes trazem imagens felizes, sorrisos, manipulando o pobre que vê. A estrela principal? Eu. Atuando sem querer em uma obra mal estruturada e que precisa de detalhes. O roteiro mal escrito não sai da monotonia diária. Ou é dia, ou é noite, nunca meio termo. Nunca feliz. Dirigindo com grande competência acabo desgovernado em minhas próprias exigências. Exigências que deveriam melhorar a atuação, mas não.
         Especulações dizem que sou incapaz, só eu digo que não, sei que aperfeiçoarei e detalhes ricos adaptarei e cercado de amores verei, os outros, menos eu, preocupado demais com o depois, estereotipando minhas ações e alterando o script, alternando opiniões. O que é bom e que pode ser ruim. Mas ao concluir, trocarei o ponto por uma vírgula, pois enquanto as palmas não soarem como uma orquestra embalada, ideias se acrescentarão, até que a arena seja pequena para a glória do gladiador.

09 outubro, 2012

Acasos de um bar - 2



         Chegando ao bar com toda sua irreverência, contaminou o ambiente com seu perfume doce, composto de notas cítricas. Como próprio de sua “personalidade” e toda maquiagem, chamou atenção desde o estacionamento, com seu Mercedes bem polido.
         Entrou de nariz empinado, diretamente para o balcão, onde sem êxito pediu:
_ Cosmopolitan, por favor
         Gustavo o garçom, preparou rapidamente a bebida e virando para entregá-la se encantou com todo charme de Abrilina. Acanhado e um pouco perdido sorriu rapidamente e voltou a preparar outros pedidos. Mas com escapadas de olhares, entreolhares e mais sorrisos.
         O que não disse e que precisa ficar claro sobre Abrilina - antes que tudo seja compreendido de forma errada - é que ela não se satisfazia com pouca coisa, era ambiciosa e não se apaixonava. Controlava bem suas emoções, era forte, estabilizada, sempre de salto e sorriso falso.
         Voltando...
         Ao terminar seu coquetel, olhou por todo o bar, procurou alguém que poderia lhe interessar. Procurava bons trajes, sapato bem engraxado, chave de carro e cabelo bem penteado. Já que a barba e os alargadores do garçom não haviam lhe agradado.
         Desculpe pelo foco exagerado, mas até mesmo seu lado mais humano era orgulhoso.
         Depois de vários olhares, e piscadelas encontrou alguém que provavelmente se encaixava nos seus padrões. Padrões que, às vezes, não seguia fielmente.
         Se aproximando da mesa onde se encontrava o loiro atraente, sorriu. Antes mesmo de sentar se desencantou.
_ Ei, não pedi sua companhia. Disse arrogante e dando as costas, o boa pinta do bar.
_ Calma, vim para conversar, apenas. Estou sozinha e preciso de alguém que me acompanhe na bebida.
_ Já disse, não pedi sua companhia, estou esperando uma pessoa.
_ Uma pessoa? Qual o motivo de deixar indefinido? Perguntou toda malandra, a dama intrometida.
_ Não interessa o motivo de deixar indefinido, a pessoa que vem me acompanhar é bem melhor que você.
_ Aposto que ela não será a melhor quando sair comigo.
_ Talvez, mas sem provocações, me deixe, por favor.
_ Sim, eu saio, mas antes me pague um cosmopolitan, por cortesia.
_ Pago, mas só se for uma viagem direta para o inferno.
         Também não mencionei sobre o ego inatingível e a certeza de que todos caem aos seus pés. Nem todos, só os fracos.
         Já que havia sido desprezivelmente dispensada, resolveu dar mais uma volta pelo bar, que não era tão grande assim. A cada mesa que passava deixava para trás inúmeros suspiros, grandes oportunidades de felicidade, mas o ar que respirava era diferente, o chão se transformava quando ela pisava. Era muita exuberância para pouco caráter.
         Viu que um rapaz no centro do bar lhe desejava por olhares, mas não se entregou tão fácil. Sentou em uma mesa de frente e esperou que ele lhe fizesse um agrado.
         Surpreendendo Abrilina, ele se levantou e sentou-se junto a ela. Encararam-se por alguns segundos...
_ Você acha que vindo aqui demonstra capacidade para me ter?
_ Não, tenho certeza que terei você. Disse em tom autoritário, mas com voz de veludo.
_ Não é tão fácil assim meu amor, sou cara e deveria saber. Já me viu várias vezes aqui.
_ Então tem me observado durante suas visitas ao bar?
_ Eu observo todos, meu caro.
         Minuto de silêncio, pausa para enfrentamento.
_ Quanto cobra pela noite?
_ Calma querido, beba primeiro, depois falamos sobre dinheiro.
_ Pensa que será esperta comigo, né?
_ Quem disse que estou tentando ser esperta?
_ Conheço muitas como você e sei que não são tão agradáveis assim depois do programa.
_ Já que sabe meu amor, não precisa de mim, procure as outras que conheceu.
         Ela se sentiu atraída, pela primeira vez quis estar com alguém, com aqueles braços fortes, os traços marcantes e o sorriso discreto, mas o orgulho falava mais alto. Levantou-se e saiu à procura de quem estivesse interessado em sexo, só, não queria mais conversas.
         Depois de rodar e rodar as várias mesas do bar preferiu sair, manteve sua dignidade - grande dignidade - mas não ficou sem receber, parou na avenida, no ponto de costume e o primeiro carro que parou foi o convite perfeito, não precisou ser importado e nem de um dono bonito, bastou pagar o que preço estipulado pelo vidro meio aberto, com traseiro empinado e jogada de cabelo.
         Aqueles padrões então, não serviram após a frustração no bar. Os empresários já não ligavam mais, nem os deputados, ninguém. Ela andava muito arrogante, achava que seu reinado duraria por muito tempo. Não imaginava que a preferência mudaria com a concorrência das estudantes safadinhas. A travesti se afundou na sua insignificância, e Henrique então voltou, enterrando de vez, Abrilina.

01 outubro, 2012

Leve sono, sonhador


Sorri por estar perdido
Não achei meu caminho
Mas encontrei um beco
Que passa perto de casa
E que dá em um túnel
Se aprofundando, ando
E no subterrâneo escuro
Escavando com toda calma
Cheguei num lugar sombrio
Avistando uma fina fresta
Fria, amarela e distante
Sua posição esclarecia
Sem duvidas um porão
Prossegui, com medo
Barulhos me assustavam
Distantes, ecoavam, avam
Eram ratos, na tubulação
Criaturas medonhas, fedidas
Minhas pegadas eram caladas
E não sabia onde pisar
Não ouvia barulho de gente
Mas poderia ter alguém ali
E meu medo se alimentava
Apalpando objetos e o pó
Cheguei perto de algo
Parecia madeira, corri a mão
Estiquei um dos pés e senti
Acompanhando a fresta, subi
Degrau por degrau e parei
Ruídos chegavam até a porta
Havia gente na casa, rangidos
A maçaneta girou...
Com medo, perdi o fôlego
“E questão não fiz de respirar”
Duplicou-se a fresta, clarão
Estremeci, cai, rolei, bati
De cima, como se flutuasse
Via tudo e nada sentia
Alguém mascarado desceu
Esse alguém me cutucava
Nunca quis tanto estar em casa
De repente algo me puxava
E era forte, rápido e barulhento
Novamente via uma fresta
Mais quente, forte e enérgica
Roboticamente me estiquei
Acertei o celular e ele desligou
Tive que levantar, tinha prova
Foi inevitável naquela manhã.