09 outubro, 2012

Acasos de um bar - 2



         Chegando ao bar com toda sua irreverência, contaminou o ambiente com seu perfume doce, composto de notas cítricas. Como próprio de sua “personalidade” e toda maquiagem, chamou atenção desde o estacionamento, com seu Mercedes bem polido.
         Entrou de nariz empinado, diretamente para o balcão, onde sem êxito pediu:
_ Cosmopolitan, por favor
         Gustavo o garçom, preparou rapidamente a bebida e virando para entregá-la se encantou com todo charme de Abrilina. Acanhado e um pouco perdido sorriu rapidamente e voltou a preparar outros pedidos. Mas com escapadas de olhares, entreolhares e mais sorrisos.
         O que não disse e que precisa ficar claro sobre Abrilina - antes que tudo seja compreendido de forma errada - é que ela não se satisfazia com pouca coisa, era ambiciosa e não se apaixonava. Controlava bem suas emoções, era forte, estabilizada, sempre de salto e sorriso falso.
         Voltando...
         Ao terminar seu coquetel, olhou por todo o bar, procurou alguém que poderia lhe interessar. Procurava bons trajes, sapato bem engraxado, chave de carro e cabelo bem penteado. Já que a barba e os alargadores do garçom não haviam lhe agradado.
         Desculpe pelo foco exagerado, mas até mesmo seu lado mais humano era orgulhoso.
         Depois de vários olhares, e piscadelas encontrou alguém que provavelmente se encaixava nos seus padrões. Padrões que, às vezes, não seguia fielmente.
         Se aproximando da mesa onde se encontrava o loiro atraente, sorriu. Antes mesmo de sentar se desencantou.
_ Ei, não pedi sua companhia. Disse arrogante e dando as costas, o boa pinta do bar.
_ Calma, vim para conversar, apenas. Estou sozinha e preciso de alguém que me acompanhe na bebida.
_ Já disse, não pedi sua companhia, estou esperando uma pessoa.
_ Uma pessoa? Qual o motivo de deixar indefinido? Perguntou toda malandra, a dama intrometida.
_ Não interessa o motivo de deixar indefinido, a pessoa que vem me acompanhar é bem melhor que você.
_ Aposto que ela não será a melhor quando sair comigo.
_ Talvez, mas sem provocações, me deixe, por favor.
_ Sim, eu saio, mas antes me pague um cosmopolitan, por cortesia.
_ Pago, mas só se for uma viagem direta para o inferno.
         Também não mencionei sobre o ego inatingível e a certeza de que todos caem aos seus pés. Nem todos, só os fracos.
         Já que havia sido desprezivelmente dispensada, resolveu dar mais uma volta pelo bar, que não era tão grande assim. A cada mesa que passava deixava para trás inúmeros suspiros, grandes oportunidades de felicidade, mas o ar que respirava era diferente, o chão se transformava quando ela pisava. Era muita exuberância para pouco caráter.
         Viu que um rapaz no centro do bar lhe desejava por olhares, mas não se entregou tão fácil. Sentou em uma mesa de frente e esperou que ele lhe fizesse um agrado.
         Surpreendendo Abrilina, ele se levantou e sentou-se junto a ela. Encararam-se por alguns segundos...
_ Você acha que vindo aqui demonstra capacidade para me ter?
_ Não, tenho certeza que terei você. Disse em tom autoritário, mas com voz de veludo.
_ Não é tão fácil assim meu amor, sou cara e deveria saber. Já me viu várias vezes aqui.
_ Então tem me observado durante suas visitas ao bar?
_ Eu observo todos, meu caro.
         Minuto de silêncio, pausa para enfrentamento.
_ Quanto cobra pela noite?
_ Calma querido, beba primeiro, depois falamos sobre dinheiro.
_ Pensa que será esperta comigo, né?
_ Quem disse que estou tentando ser esperta?
_ Conheço muitas como você e sei que não são tão agradáveis assim depois do programa.
_ Já que sabe meu amor, não precisa de mim, procure as outras que conheceu.
         Ela se sentiu atraída, pela primeira vez quis estar com alguém, com aqueles braços fortes, os traços marcantes e o sorriso discreto, mas o orgulho falava mais alto. Levantou-se e saiu à procura de quem estivesse interessado em sexo, só, não queria mais conversas.
         Depois de rodar e rodar as várias mesas do bar preferiu sair, manteve sua dignidade - grande dignidade - mas não ficou sem receber, parou na avenida, no ponto de costume e o primeiro carro que parou foi o convite perfeito, não precisou ser importado e nem de um dono bonito, bastou pagar o que preço estipulado pelo vidro meio aberto, com traseiro empinado e jogada de cabelo.
         Aqueles padrões então, não serviram após a frustração no bar. Os empresários já não ligavam mais, nem os deputados, ninguém. Ela andava muito arrogante, achava que seu reinado duraria por muito tempo. Não imaginava que a preferência mudaria com a concorrência das estudantes safadinhas. A travesti se afundou na sua insignificância, e Henrique então voltou, enterrando de vez, Abrilina.

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