27 fevereiro, 2013

Acasos de um bar - 3

       Já bêbado, porém de melancolia, e tonto de rancor, parou ali mesmo, no bar da esquina, se juntando com a escória da cidade. Estava atrás de esquecimento, não importava se perdesse todo seu tempo, toda sua vida. Desejava de toda sua alma, por toda vida que possuía em cada célula, um pouco de paz, sem nenhuma lembrança, nada que agulhasse seu ego, arrastando-se no chão.
_ Me dê o que tem de mais forte. Com voz trêmula, tomada pela insegurança que desfalecia seu corpo.
         O copo colocado sobre a mesa foi preenchido com algo amarelado, ou esverdeado, a luz do local não contribuía para a distinção. Sem hesitar, bebeu num gole só, que desceu queimando qualquer dor, e afagando suspiros que, nunca mais, voltariam a lhe incomodar.
_ Outro, por favor. De forma mais branda soou, o que era instabilidade pura.
_ O mesmo? Não prefere algo mais fraco? Indagou o dono do bar, que já tinha alguns fios brancos na cabeça, achando que ajudaria. Só não sabia que para anestesiar tanto desconforto, era preciso de algo tão forte quanto veneno, que o derrubasse de uma vez só.
_ É, pode ser o mesmo. Tanto faz na verdade.
            Enquanto se afogava em decepção, na televisão velha e empoeirada, que ficava no balcão, um jogo de futebol começava. E quem jogava? Não sei. Ele acompanhava, com rápidos olhares, alguns resmungos e seguidas goladas, que esvaziavam rapidamente a garrafa sem rótulo.
_ Como é engraçada essa vida! Exclamou ao garçom, que o olhava de forma espantosa, vendo ali, do outro lado do balcão, alguém que procurava mais que bebida.
_ Em um dia você está seguro de tudo que sente, de todo o amor que o faz bem e de todos os clichês da vida. Noutro, você prefere nunca ter acreditado no amor, ou em qualquer sentimento parecido, derivado, que saco! Odeio o amor!
_ Calma meu jovem, você não viveu nada para ter tal opinião formada sobre o amor. Você...
_ Cala a boca - disse alterado e interrompendo o dono do bar - não pedi sua opinião sobre o amor, não desejo, nem mesmo, ouvir sua voz. E me dê mais disso aí.
        Mal sabia ele, que nessa brincadeira, foram as horas, sua sanidade, algumas garrafas, todos embora. Muito menos, que os próximos goles o enforcariam ali mesmo, sentado no bar amarelo, localizado na travessa do Desgosto.
_ Aumenta o som da tevê, não ouço nada. Disse. Melhor, gritou.
_ Cadê, que até agora não me serviu? Tenho que gritar?
         Obviamente seus sentidos estavam atordoados, o álcool já fazia efeito. Infelizmente, ou não, sairia envelopado dali, e presumo que sem paz, como tanto desejou.
 _ Tá aqui sua dose. Espero que seja a última. Nervoso com a situação, desejou que o bebum logo fosse embora.
         Ao virá-la, sentiu molhada sua boca, faringe e esôfago, antes mesmo que o líquido alcançasse seu estômago uma reação adversa foi desencadeada. Seus braços não respondiam, a visão ficara turva, o suor esfriara, a língua parecia não funcionar, babava e balbuciava, sentia seu corpo queimar, logo, não sentia mais nada. Caiu no chão e terminou de morrer ali, indigente. Não sei dizer a causa, mas o vi estrebuchar e senti que pedia por misericórdia.       
          Pobre moço, o do bar, que minutos antes, desejara sua morte, um infortúnio. E agora, revendo os fatos, lembro-me vagamente de ter visto estricnina em sua casa, mas jogada no lixo, tornou-se irrelevante para mim. No entanto, por conhecê-lo como ninguém, aposto que foi uma covarde dose antes de sair. Típico de sua personalidade fraca e vulnerável.

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